“A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar.”

6 de junho de 2014 § Deixe um comentário

Vivi como adulto enquanto era criança. Por medo de ter cicatrizes que me fizessem como os adultos dos quais via, fiz-me gente grande. Parei de sorrir como bobo e me resguardei. Troquei pessoas por livros e agi como um homem sério. Gostava dos números, que não necessariamente sentiam o mesmo por mim, mas a admiração certamente era sincera. Via os adultos que me rondavam e me esforçava muito para não ser como eles. Via o esforço deles para serem cada vez mais medíocres, cada vez mais acomodados e conformados com uma vida da qual não lhes pertencia. Eles manuseavam pratos de barro, quando poderiam ter o cristal do mais caro. Me esforcei muito, enquanto criança, para não ser um adulto medíocre. Procurei não me encher de cargas ou cicatrizes que pudessem ou não ir fundo em minha pele. Uma dessas coisas que não têm volta.

Vivi uma vida resguardada, reclusa. Apaixonei-me uma, duas vezes. Coisas de alguns dias e idealizações rápidas. As pessoas sempre eram menos interessantes no mundo real. Vivi cheio das vivências de outrem. Explico: via nos outros o que não fazer, como não ser, quem não amar. Tinha um caderninho de anotações, onde deixava todas essas observações sobre a vida humana. Eu era um homem roxo que amava os números na pele de uma criança ruiva. E me esforcei tanto para não ser como os adultos conhecidos, que no final das contas não percebi como estava sendo bem sucedido apenas em ser pior do que eles.

Mas, um belo dia, eu chorei. Não conseguia entender as gotas que insistiam em sair dos meus olhos. As gotas salgadas, o gosto de tristeza… Percebi que havia me deixado cativar. Fugi das cicatrizes minha vida inteira. Fugi de pessoas, fugi de lugares. Vivia uma vida errante, sem caminho a seguir, sem destino certo. Sonhava com a natureza, onde pudesse viver em contato com ninguém mais. Infelizmente, nessa tentativa incessante de fugir de uma vida que não era minha, acabei esquecendo de procurar por alguma que pudesse me pertencer.

Deixei-me cativar aos 40 anos. Não foi por uma mulher, um homem ou um animal. Deixei-me cativar por uma rosa. Talvez não fosse uma das mais bonitas, mas certamente chamou minha atenção. Tanta atenção me chamou, que fui completamente displicente ao tentar tê-la pra mim. Os espinhos me perfuraram os dedos. O sangue nas minhas mãos era meu e eu havia causado isso. Fui levado a pensar que poderia ter apenas uma rosa bonita, quando seus espinhos foram os responsáveis por feridas extremamente dolorosas.

Fugi de cicatrizes minha vida inteira. Talvez eu também tenha fugido de mim mesmo minha vida inteira. Eu era um papel em branco e agora tenho algumas manchas vermelhas. Continuo e não sei se as manchas fazem parte de algo bom ou ruim. Continuo e não sei se poderia ter feito diferente, se teria me privado de mais uma ferida. A rosa era bonita. A rosa era magnífica! Mas nem só de beleza vive um homem. Descobri que também vivemos de sangue derramado. Do vermelho vivo do nosso corpo. O vermelho que pulsa, o vermelho que dói. A cicatriz visceral.

Continuo e não sei de muitas coisas sobre a vida. Ou sobre mim.

Solitude

15 de fevereiro de 2014 § Deixe um comentário

Eu ando para trás? Não. Ando de costas, pois não me arrisco a ver com meus próprios olhos o que espera esse coração cansado. Disseram-me um dia “só enxerga bem quem vê com o coração”. Infelizmente, o meu órgão cansou de bater e parou no meio do caminho. É por isso, portanto, que olho para o que foi, com a esperança de voltar correndo para os teus braços, ó Passado. Recuso-me a aceitar o Futuro de braços abertos, e dou-lhe as costas, uma vez que, despreparar-me para o que ainda não aconteceu já me causou danos em um tempo remoto. Não gostaria de repetir o mesmo erro duas vezes. 

Ando para trás. Ando de costas? Quem dirá qual é o certo, o errado? Tudo depende do ponto de vista de quem vê. Não olho para os lados com medo de me perder, não olho para minha frente receosa por me prender a algo. Não ouso olhar também por cima do ombro e ver algo indesejável. Quero andar assim: sem saber o que me espera, sem saber o que me resta. Por isso, ando de olhos fechados. Como um cego a procura de casa, eu procuro meu lugar. Embora procure, encontro-me sem cão guia, sem bengala para me auxiliar em meus passos por meio dessas entrelinhas de concreto urbano. 

E talvez – só talvez – depois de tanto procurar, eu perceba que não necessitava a principio sair de lugar nenhum. Talvez – e somente talvez – eu perceba que o meu lugar estava em mim mesma, dentro do órgão que insisti em deserdar, numa tentativa desesperada – e ilusória – de me preparar para o que estava por vir. Talvez… Não haja lugar ideal senão nós mesmos. Achar no outro uma espécie de lar é só um acaso temporal. Nascemos sozinhos e morremos sozinhos. Chamar isso de pessimismo seria desvirtuar a verdade, procurar subsídios menos dolorosos, inverdades confortáveis. 

Então eu… “Eu, eu, eu”. Num eterno egocentrismo, procuro justificativas que me façam compreender quem sou hoje, onde estou nesse exato momento (onde estaria eu, se não dentro da minha própria mente?). Numa infindável luta contra meu próprio ser, chamo de desleal todo tipo de ego e procuro não procurar mais alimentos diários para meu próprio umbigo. De uma introspecção insubstituível, escrevo como quem escreve para si mesmo. Escrevo como quem escreve para o umbigo egocêntrico, dou-lhe sermões e o repreendo como uma mãe repreenderia seu filho.

No entanto, o ego é meu alimento literário. É quem faz de mim metade verdade, metade utopia. Viver sem ele seria negar uma parte minha: aquela completamente invisível a olho nu. Todavia, vista pelos escritores, poetas, visionários – aqueles que veem formas, não pessoas. A intersecção das duas metades de uma pessoa que, além de formas, vê também cores. 

E, pensando assim, decidi viver azul a partir de agora. 

(Como eu disse, tudo depende do ponto de vista de quem o leitor vê)

Consumo

17 de janeiro de 2014 § 1 comentário

O melhor seria não te ter.

O melhor seria afastar-me de você. Tirar-te dos sonhos que me perseguem à noite, enquanto durmo. Dar um jeito nas músicas que insisto em escrever, todas com endereço certo. Mas talvez isso seja uma forma minha de tirar de dentro de mim tudo o que grita você.

Porque você me consome. Consome tudo dentro de mim, cada pedaço do meu corpo, da unha crescida do dedo mindinho à ponta do maior fio de cabelo de minha cabeça. Tudo. E, de repente, sou toda você: meus passos, meu sorriso, o modo como falo, ajo, respiro. A situação desesperançadora na qual me encontro vira você. Sou o Coração Frustrado de Jane.

Cansei-me do consumo. Cansei-me das falsas desculpas. Olha, cansei até de você. Mas não basta cansar: você ainda me consome. Quando menos espero, lá está você. Fruto de uma imaginação tão minha quanto sua. Quando me olho no espelho, vejo você. Tem alguém usando minhas roupas e agindo como eu agiria. Mas eu? Não. Sou você.

Belo Horizonte, 27 de Novembro de 2003

22 de dezembro de 2013 § 1 comentário

A Eduardo,

Não poderia colocar em palavras o sentimento que tenho ao escrever essa carta, mas tentarei, em prol do nosso falido amor, da nossa vã esperança em ter algo que claramente resultaria inútil. É verdade, amor, que talvez não fosse o momento, ou a hora, ou a pessoa certa – se é que existem pessoas certas umas para as outras, minha vida já está cheia de incertezas demais -, mas gostaria que soubesse de algumas poucas coisas antes de dizer um adeus definitivo.

Não gostaria de deixar para trás, como quem esquece de repente, do curto tempo que passamos juntos. Minha mania de guardar as coisas numa caixinha ainda continua, e guardo as cartas de amor trocadas por nós dentro dela também. Estaria mentindo se dissesse que não significou nada, mas também se dissesse que sem seu amor eu morreria. É fato que significou tudo aquilo capaz de significar enquanto estávamos juntos. Hoje, restam-me as lembranças e os sorrisos. Tenho algumas noites ruins, sonhos que não me deixam dormir – veja você a ironia disso -, mas no mais, continuo a mesma. Escrevo porque necessito me fazer inteira, e dado à forma como nos despedimos, achei esse o melhor jeito de fazê-lo.

Agora, o que dizer do sentimento, Eduardo? Eu te amei. Indago-me: como será possível um sentimento de tamanha grandeza ser sentido por tão pouco tempo? Mas fato é e fato será. Mesmo que por uma hora, alguns poucos minutos ou uma fração de segundo, eu te amei. Porque naquele momento, querido, a única coisa certa a se dizer era essa, nossa mente estava tão sincronizada e eu sei que você sentiu o mesmo. Acaso houvessem de me dizer antes, jamais acreditaria na veracidade de um amor tão curto, intenso, rápido. No entanto, como já disse, minha vida anda cheia de incertezas e você foi uma delas. Você desconstruiu o que levei anos para construir: as certezas sobre o amor. Você, Eduardo, foi embora como veio, de supetão, numa bela manhã – ou noite -, num dia trivial. Não me arrependo de ter conhecido em você tudo aquilo que eu duvidava existir em alguém como você. Não arrependo de ter me surpreendido, ou me ter permitido ser feliz durante o pouco tempo que – espero eu – ambos fomos. Embora o desfecho atual tenha sido triste, todo o processo foi uma espécie de serendipity. Você foi serendipity.

Desculpe-me pelos prováveis erros cometidos; como já disse, continuo a mesma, sempre metendo os pés pelas mãos devido às certezas que parecem imutáveis. Não quero me prender à uma ideia, meu querido. E você foi, de todas elas, a mais agradável. Escrevo porque me faço inteira, e somente assim eu poderia dizer adeus de forma apropriada. Pode não ser definitivo, mas por ora, espero que o seja. Porque o amor daquele minuto foi-se embora, mas permanecem comigo o carinho e desejo de que esteja bem, mesmo com todo seu ceticismo sobre a vida, mesmo com toda sua não-crença em qualquer coisa não palpável. A verdade é, Eduardo, que, diferente de você, acredito não só por nós dois, mas por um mundo inteiro. E não me arrependo disso também.

Espero, sinceramente, que meus sentimentos sejam recíprocos e que carregue consigo os pequenos presentes que teimei em lhe dar, para não guardar comigo mais lembranças suas – seu cheiro já me basta -, e que sejam eles surpresas agradáveis nos dias amargos da vida, para lembrar do que fomos, não com a nostalgia melancólica do que poderia ser, mas com o saudosismo alegre de tudo que pudemos ser.

Com carinho,
Ingrid

(Des)Conforto

26 de novembro de 2013 § 2 Comentários

Você me beijou e eu sorri. Eu sempre sorrio. Acho que é o costume, desde pequena precisava sorrir. Precisava. Hoje não sei mais.

Cansei. Dos beijos, abraços, beijos, amassos. Cansei da utopia que não me vinga, não me quer. Talvez eu não a queira. Porque uma utopia só é real quando não existe e eu me recuso a existir em tais circunstâncias.

Há uma incerteza em definir verdade e sonho, mentira e realidade. Essa incerteza me segue desde sempre e hoje… Hoje sonhei com alguém. Outra utopia. Amo-as. Sonhei com um sorriso que nunca vi, uma conversa que nunca tive. Desfaço-me das palavras, fico com os sonhos. Existe algo em mim, em você, em todos nós; porém, não é sequer visto, nem lembrado. É triste ser a única a perceber.

Sinto-me falando com estranhos e procurando respostas nas portas erradas. Talvez eu devesse tentar a janela, mas a incapacidade de sair da cama colada na parede, com o travesseiro rosa de seda e a coberta tão quentinha… Essas coisas me impedem, a inércia me impede. A apatia me pede um pouco mais de letargia e eu continuo. Continuo deitada, digitando palavras sem sentido aparente e fazendo listas mentais sobre fazer listas – mas tudo sempre é esquecido pela manhã.

De qualquer forma, você me beijou e eu sorri. Eu sempre sorrio. Mas dessa vez… Não foi um sorriso falso. Senti falta dos beijos que me beijavam e, ao colocar os dedos nos lábios, senti falta dos teus. Por um momento consegui levantar da cama encostada na parede. Para logo depois, infelizmente (ou não), descobrir que havia me apaixonado por uma ideia extremamente atraente – assim como você é.

Saí de cena com o coração na mão. A gaita entristecida tocou não ao fundo, mas num primeiro plano, enquadrando meu (des)conforto, meu sorriso ora falso, ora sincero; a utopia alimentada, e então, quebrada. E dessa vez, a fumaça de cigarros alheios levou o que eu já sabia – mas não queria admitir.

Cansei-me.

2 de agosto de 2013 § 2 Comentários

Dos sorrisos amarelos, da fala sem graça, da vida ensolarada. Cansei-me do calor excessivo, da piada que não vinga, do amor que nunca estará lá, ou aqui. Cansei-me dos dias praianos, da vida rotineira, do alarme que toca, da ambulância sorrateira – mas será possível? Cansei-me das tardes desperdiçadas, da procrastinação excessiva, do esquecimento recorrente. Cansei-me do déficit de atenção, do déficit bancário, do déficit pelo déficit. Cansei-me da cama no chão, do abraço no cão, da vida cansada. Ha. Cansei-me do cansaço.

Cansei-me dos anáforos que insistem em gritar. E eles gritam: “estou cansada!”, dos vícios de linguagem afirmando bordões reconhecíveis. Cansei-me da liberdade comedida, do olho que tudo vê, das castas invisíveis, da pirâmide social. Das tentativas incessantes – todas com destino certo -, dos dias tão iguais. Cansei-me do quadro melancólico na parede, do armário roxo, do teto branco. Da senhora da esquina, do moço da cantina, da vida severina. Porque eu… “Eu quase não falo, eu quase não sei de nada.”

Sou como rês desgarrada. (Cansei disso também).

Cansei-me de ver o som, ouvir as cores, sentir a luz tocando em meus braços: cansei-me da sinestesia perseguidora. Dos tempos modernos, da máquina imparável, dos sorridentes ignorantes, dos romances distópicos, das tardes sempre nos mesmos lugares, com os mesmos tons alaranjados e rosas – a poluição nunca foi tão bonita -, as mesmas pessoas, nos mesmos horários.

Cansei-me de estar cansada de mim mesma. Acordar. Quem sabe mudar? Viver de um jeito onde não há tantas cores, mas sentimentos plausíveis de serem sentidos. Por favor, quero cansar de um novo lugar – pois este já está perto de se acomodar. E todos sabemos: não há nada pior que morrer de conforto.

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